O que significa Namastê? (e outras saudações indianas)

Namastê!  O que significa isso?  Vou explicar!  E além do significado de namastê, também vou esclarecer hoje a palavra namaskar – e como estas duas saudações hindus são utilizadas na Índia hoje em dia.  E ainda vamos falar de muitos outros cumprimentos tradicionais indianos!  Então, vamos lá!

O significado de namastê

A palavra namastê tem suas origens na antiga língua indiana de sânscrito.  Basicamente, significa “te saúdo reverencialmente” ou “me curvo diante de ti”.

Em sânscrito, namaḥ significa “curvar-se”, “reverenciar”, “fazer uma saudação reverencial”, ou até “adorar” – e essa mesma palavra se encontra em vários mantras indianos, como o famoso “Om Namah Shivaya”.   , em sânscrito, simplesmente significa “a ti”.  (Se você já leu nossa página sobre as línguas da Índia, você sabe que o sânscrito e o latim são, de fato, primos distantes na mesma família linguística indo-europeia – e a semelhança da palavra “tu” entre as duas línguas é só mais um exemplo deste parentesco!)

Então, “te saúdo reverencialmente” ou “me curvo diante de ti”.  E, de fato, o namastê é tradicionalmente falado com as palmas das mãos juntas em frente ao peito e uma leve inclinação do corpo para frente.  Esta palavra e este gesto mostram respeito para a outra pessoa.

namaste - anjali mudra

O gesto que acompanha o namastê é utilizado na Índia ainda mais que a palavra namastê mesmo!  Esse gesto, das mãos juntas na frente do corpo, é chamado de anjali mudra ou pranamasana – e é um gesto muito comum de respeito na Índia.  É utilizado também com muitas outras saudações respeitosas indianas (veja abaixo).  E é até usado frequentemente sem palavras para saudar (ou se despedir de) uma pessoa – expressando o mesmo sentimento que um namastê falado!  O anjali mudra também se usa na Índia em outros contextos em que esse sentimento de respeito é devido – por exemplo, em oração.

Algumas pessoas muito espirituais (especialmente quando se trata de não-indianos) gostam de dar explicações bonitas e floreadas sobre o significado de namastê – coisas do tipo “o divino que habita em mim saúda o divino que habita em você”.  E eles vêem e entendem a palavra assim.  Porém, o significado exato e original da palavra é o que aparece acima.

Quanto à palavra namaskar, basicamente significa a mesma coisa.  kāra, em sânscrito, significa “ato” ou “ação” – então namaskar, ou namaskāra, faz referência ao ato de se curvar e saudar reverencialmente.  Esta palavra também aparece no nome da famosa série de posturas de yoga surya namaskar – “saudação ao sol” (surya significa “sol” em sânscrito).

O uso da palavra namastê na Índia hoje em dia

Então, namastê é uma tradicional saudação ou cumprimento hindu (também usado para se despedir).  Tem gente ocidental que, sabendo isso, viaja para a Índia e cumprimenta todo mundo com um namastê.

Isso é um pouco como o estrangeiro que aprendeu que “adeus” em português quer dizer “goodbye” – aí ele chega no Brasil e fala “adeus” cada vez que ele se despede de alguém!  Sim, no dicionário a palavra “adeus” é “goodbye” – mas, na prática, não a utilizamos para toda despedida, e um simples “tchau” é muito mais comum.  A situação é um pouco parecida (embora não exatamente igual, claro) com o uso de namastê como cumprimento na Índia.

Outras saudações indianas tradicionais

Saudações religiosas

Primeiro, é importante notar que a população da Índia é mais de 1.2 bilhões de pessoas, das quais quase 80% são hindus e os outros 20% (uns 250 milhões de pessoas) seguem diversas outras religiões.  (Você pode ler mais sobre as várias religiões da Índia aqui.)  Namastê é principalmente uma saudação dos adeptos do hinduísmo (de certas regiões), e também é tradicionalmente usado pelos adeptos do jainismo.  Adeptos de outras religiões na Índia (islã, budismo, etc.) usam outras saudações tradicionais.

Por exemplo, mais de 10% da população indiana é muçulmano (quer dizer, tem mais de 100 milhões de indianos muçulmanos) – e a saudação tradicional deles é salaam aleikum (ou as-salaam aleikum). Na língua árabe, salaam significa “paz” e aleikum (pronunciando o ‘m’ no final) significa “em você” – então salaam aleikum significa “paz em você”.  (Note que não é “salamaleico” como na música – essa é uma pronuncia e ortografia bem aportuguesada!)  Os muçulmanos na Índia, apesar de estarem bem longe da Arábia onde a religião islâmica nasceu, ainda utilizam essa saudação tradicional da língua árabe.

O sikhismo é uma religião da região indiana de Punjab, com mais de 20 milhões de adeptos na Índia – e eles também têm sua própria saudação tradicional: sat sri akal.  (Os hindus morando em Punjab ainda utilizam namastê.)

Os indianos estão muito acostumados a conviver com gente de outras religiões, e provavelmente ninguém vai se ofender se você lhe cumprimentar com um namastê.  Porém, muitas vezes é fácil reconhecer um muçulmano na Índia pela roupa, ou um sikh pelo turbante, por exemplo – e o mais educado sempre é cumprimentar a pessoa com a saudação tradicional do povo dele ou dela.

Então, não se surpreenda se você observar, na Índia, um hindu cumprimentando um muçulmano com “salaam aleikum” – e o muçulmano respondendo ao hindu com “namastê”!

E se você não souber a religião da pessoa?  Namastê sempre é o mais “seguro”.

Saudações regionais

Também é importante notar que tem dezenas de idiomas nativos regionais na Índia, que são completamente distintos um do outro – não é como no Brasil (e a maioria dos outros países ocidentais), onde basicamente todo mundo fala a mesma língua.  (Você pode ler mais sobre a complicada situação linguística da Índia aqui.)  E vários desses idiomas indianos tem suas próprias saudações tradicionais – namastê pode ser considerado principalmente uma saudação do povo que fala hindi.

Por exemplo, no estado de Tamil Nadu, no sul da Índia, o povo fala a língua tâmil – e a saudação tradicional nessa língua não é namastê, mas vanakkam.

Similarmente, na região de Ladakh, o antigo reino budista na fronteira da Índia com o Tibete, o povo fala a língua Ladakhi – e o cumprimento deles é julley.  (Já andei por regiões tibetanas também – essas regiões não fazem parte da Índia, mas se você quiser saber uma saudação tradicional dos tibetanos, é tashi delek.  Na Índia, você pode encontrar essa frase onde há exilados tibetanos – por exemplo em Dharamsala.)

As regiões tribais, por exemplo na maior parte do nordeste indiano, são outras regiões com suas próprias saudações típicas.

Na maioria das outras regiões da Índia, ao menos existe uma variação de namastê – embora não tenha necessariamente a mesma pronuncia, e não seja sempre a saudação mais comum na região.  Para dar só um exemplo: a pronuncia na região de Bengala Ocidental seria nomoshtê – mas lá é até mais comum cumprimentar com pronaam.

Nas regiões do sul onde o idioma nativo é o télugo, dandamu é uma saudação tradicional; em Kerala, onde falam a língua malaiala, tem o vandanam.  E assim por diante…

Mesmo assim, todo mundo vai ao menos reconhecer o namastê – e em qualquer região onde a língua hindi é comum (quer dizer a maioria do norte da Índia), mesmo onde não for a língua predominante, também é comum o uso de namastê da língua hindi.

A importante questão de formalidade

Aqui é outra questão em que muitos estrangeiros que visitam à Índia se confundem.  Namastê não é “oi”.  É uma palavra que mostra um grau de respeito, reverência, ou formalidade – e seu uso na Índia reflete isso.

Exemplos de quando namastê e namaskar são utilizados, particularmente entre hindus e jainistas, incluem os seguintes: quase qualquer contexto religioso (por exemplo: cumprimentando um sacerdote em um templo)… ou com pessoas que tipicamente recebem mais respeito na sociedade hindu, ou a quem você pode querer mostrar mais respeito ou reverência (por exemplo: um velho, um guru, um professor, um mentor, um chefe, um político, etc.)… ou em ocasiões formais (por exemplo: cumprimentando  o público no começo de um discurso)… ou em outras situações que exigem um grau mais alto de formalidade ou respeito.

A Índia é um país muito diverso, e a frequência do uso de namastê reflete isso também.  Nos vilarejos indianos mais tradicionais, as interações entre o povo mantêm mais formalidade, então o uso de namastê é mais comum em muitos desses lugares.  Em alguns destinos sagrados, onde a vida gira entorno da religião, também se ouve mais essa saudação.  Enquanto isso, nas cidades indianas, que estão se modernizando rapidamente, o uso de namastê é bem menos comum – e fica reservado principalmente para contextos como os mencionados acima.  Isso se aplica à maioria das saudações regionais mencionadas na parte anterior deste post (julley é uma exceção, usado mais ou menos como “oi” – e “tchau” – em Ladakh.)

Então, muitos estrangeiros (especialmente os imersos nas práticas espirituais indianas) se surpreendem ao ver que, na vida cotidiana das cidades indianas, o uso do inglês “hello” é até mais comum que namastê!

E isso até entre pessoas que não falam inglês.  Depois de se cumprimentar com um “hello”, o resto da conversa continua em hindi ou outra língua.  (De fato, isso não é tão diferente do que fazemos aqui no Brasil – a palavra “tchau” é da origem italiana, mas não precisamos poder falar italiano para nos despedir dos amigos assim!)  Se você for viajar pela Índia, se prepare para ouvir muitíssimo hello!

Claro, tem muitos outros jeitos para cumprimentar uma pessoa em hindi (e nas outras línguas indianas) – “kaise ho?” ou “kya hal hai?”, por exemplo, são só algumas das frases da língua hindi que correspondem a nosso “como vai?” ou “tudo bem?”.  Essas são expressões cotidianas de cumprimento – e todo outro idioma indiano tem suas próprias expressões (“kem cho?” na língua gujarati, para dar só um exemplo da primeira região indiana em que eu morei.)

Eu falo hindi, mas morei principalmente em cidades grandes na Índia.  Na maioria da minha vida cotidiana lá (no trabalho, nas lojas do meu bairro, encontrando com os amigos, etc.), quase não ouvia namastê, mesmo com pessoas com quem eu interagi na língua hindi.  Você vai ouvir (e usar) essa palavra com mais frequência se você se envolver mais com comunidades religiosas, ou se instalar em ambientes muito tradicionais na Índia.  A dica obvia é de escutar como as pessoas ao seu redor estão se cumprimentando – e, claro, se alguém te cumprimentar, você responde de acordo com o jeito que você foi saudado!

Falando nisso, até entre o povo hindu que mora nas regiões onde se fala a língua hindi, tem outras saudações formais tradicionais!  Geralmente essas são de origens religiosas, tendo a ver com as afinidades religiosas da pessoa – entre os mais comuns de ouvir na Índia estão ram ram e jai shri ram, as duas fazendo referência ao deus hindu Ram, ou Rama.  Se você anda com gente que tem muita afinidade com outro deus (ou deusa) hindu, alguma vez você pode ser cumprimentado com uma saudação que faz referência específica a esse deus!  De novo, o ideal seria tentar responder de acordo com a saudação que você recebeu.

Mais uma coisa:  Quem está imerso nas práticas espirituais de origem hinduísta fora da Índia (por exemplo, o yoga) pode esperar ouvir muito namastê nesses contextos.  Alguns estrangeiros até falam “namastê” mais do que os próprios indianos!  Mas tudo bem – frequentemente esses são contextos em que um grau de respeito e formalidade é apropriado.  Tem diversos lugares na Índia que recebem muitos visitantes estrangeiros que se interessam pelo lado espiritual do país – e os indianos nesses lugares sabem disso (sobretudo os que ganham a vida com o dinheiro dos estrangeiros!)  Então não se surpreenda se, por exemplo, um lojista em um lugar turístico cumprimenta você, o estrangeiro, com um “namastê” – mas depois cumprimenta os outros indianos de outro jeito!

Namastê vs. Namaskar

Que eu saiba, não existia nenhuma distinção entre namastê e namaskar na língua sânscrita nos tempos antigos (veja os significados literais das duas palavras, que eu dei acima).  Mas às vezes se pode perceber uma pequena diferença no uso das duas saudações na Índia hoje em dia.

As vezes, namaskar é utilizado quando a pessoa quer mostrar ainda mais respeito que o namastê reflete – por exemplo: cumprimentado um velho muito venerável, um grande dignitário, um muito importante líder da comunidade, etc.  E tem gente que utiliza namaskar quando estão cumprimentando um grupo de pessoas, enquanto utilizam namastê para uma pessoa só.

Mas essas não são regras.  Depende muito da pessoa – e talvez até das tradições da região ou da escola do hinduísmo que a pessoa segue.

Mais uma nota interessante sobre namastê

Você quer ouvir muito namastê?  Você quer visitar um lugar onde essa saudação é utilizada sempre na vida cotidiana?  Então visite o Nepal!

Neste país vizinho da Índia, uma maioria da população também é adepta do hinduísmo.  Mas diferente da Índia, namastê é usado no Nepal como nós usamos “oi” ou “olá”!  É simplesmente o jeito de todo mundo se cumprimentar no dia a dia.

Já passei uns 7 meses no Nepal em 5 visitas distintas ao longo dos anos.  Guardo muitas lembranças legais de todos os homens, mulheres, e crianças me cumprimentando com um “Namastê!” animado.  Uma população muito simpática, experiências muito legais, e muitíssimos namastês!

**********

Bom, espero que este post tenha ajudado vocês a entenderem melhor o significado de namastê e seu uso na Índia hoje em dia – e veja nosso glossário de palavras indianas para explicações sobre muitos outros termos!




Sobre

Nasci nos Estados Unidos e vivi na Índia intermitentemente entre 2006 e 2014, em cidades como Ahmedabad e Mumbai. Atualmente moro em Minas Gerais. Já viajei em mais de 70 países, mas a Índia sempre vai ser muito especial para mim!

Publicado em Cultura Indiana Marcado com:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.